um bem material: carteira

     Qualquer pessoa mais ou menos sã hoje em dia sabe que o consumo desenfreado é um dos venenos da vida.
     Todos nós temos coisas diversas, nem sempre úteis ou práticas, mas há o apego.

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     Hoje eu aposento uma carteira que viveu comigo diariamente durante uns sete ou oito anos. Ela está batida, rasgada, furada, quebrada, arrasada, dilacerada. Estava literalmente por um fio e este se quebrou.
     Foi-me presente mas está na hora de deixá-la, sem tristeza ou sensação ruim. Afinal, é só mais uma coisa que veio e passou. As histórias ainda ficam… enquanto lembrarmos.

     Dentro, encontrei alguns objetos que mal recordava que lá estavam. Um ingresso de uma peça dos Satyros de 2010. Um bilhetinho de biscoito da sorte de Yreka, 2011. Um pequeno anel com uma bela história. Ingressos de cinema, 2013. Um daqueles pequenos pássaros em origami, Berlin, 2011, presente de uma amiga que passou. Uma chave extra, de um apartamento que não moro mais. Esses pequenos objetos que andaram comigo por algum tempo… essas pequenas coisas. Dessas ainda não estou livre para simplesmente deixar ir. Vão para uma caixinha com outras coisinhas que o apego me faz carregar de lugar a lugar, mudança a mudança.

     Será bom um dia estar livre desses bens materiais e simplesmente sorrir.

the left to mount shasta

     My mom lives in northen California, so way up north that even people from the south (San Francisco!) think that i might be hallucinating when i talk about Yreka. Eureka? No, Yreka. Humboldt? No, Yreka. Are you sure is not Eureka? Oh, well… California is well known everywhere in the world, but the northen part of it is still a mystery even to a few americans. There is hope, i’ve met a girl from East Bay that not only knew Yreka, but went close by bicycle some years ago.
But enough with unpractical memories about a nice girl. What i would like to talk about is the road from my mom’s place to town. There is always a moment or two of amazement for me. She lives in a valley, we can’t see much further. When we take the road to Yreka, we go through a small canyon and then, right on a left curve (!), there is always a beat, then surprise. Mount Shasta beautifully appears. I am always excited about how it will look. Sometimes the sky is all clear, we can see the whole mountain and its glaciers, sometimes all cloudy, just the peak or parts of it – days when people say the spaceship is hanging around. He.
I never had much relation with nature before, living in big cities just petrifies oneself. We just get used to concrete and asphalt. I knew that in eastern philosophy mountains are meaningful, as sacred places and as metaphor of life itself with all its difficulties that we must go through. Mount Shasta got me. I’ve been skiing over there, all good and fun, but next time my wish is to walk around and live it some days. Just be there…

incidente espiritual

     Eu entrei na lotação e tudo estava tranquilo. Fui para o lugar que eu mais gosto, o espaço reservado para cadeira de rodas. Dá para ficar em pé, ao lado da janela e fora do caminho de qualquer pessoa. Dá para ficar sozinho.
     Comecei a sentir um calor anormal. Queria que o carro andasse para ventilar um pouco. Comecei a suar. Olhei para trás em busca de algum assento vazio, agora já estava tudo ocupado. Uma leveza na cabeça me dava sinal de algo diferente. A lotação começou a andar. Era difícil me segurar e ficar parado nas curvas fechadas. Respirar já não era normal, precisava fazer uma força consciente. Eu fechei o olho por um instante. Abri e a luz incomodava. Tudo parecia mais claro. Fechei os olhos. Eu sabia que a energia do meu corpo estava dissipando. Eu não queria ir.
     É assim que vai ser? Dentro de uma lotação, numa tarde de extremo calor? Tantas coisas a fazer. Minha mãe. Minha avó. Os filmes que eu não fiz. Eu devia ter desenhado mais. Não foi uma vida desperdiçada, mas eu sempre tive a sensação de estar descobrindo mais e mais e agora…
Eu não conseguia mais. A energia que saía do meu corpo ia para o universo. Eu compreendi o que estava acontecendo. Algumas lágrimas escorreram por meu rosto e eu só pude sorrir. Estava pleno.

     Três horas depois eu acordei na cama de um hospital. Durante esse tempo eu não perdi a consciência nem um instante. Vou tentar descrever o que aconteceu.
     Eu tinha percepção que existia, mas não apenas como um corpo ou uma mente. Eu estava diretamente conectado com todo o meu redor. Não estava apenas neste plano, no mundo físico, material. Já não tinha mais essa divisão de ser/sentir/estar. Passado e futuro estão no agora. A unidade é verdadeira, não só entre os seres vivos, mas literalmente tudo. Eu entendi o significado da palavra divino. Percebi a beleza da simplicidade da vida e da morte.

     A vida é um presente.
     E eu agora sou um ser espiritual.

 

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