sombrio teorema

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____ Esse último sábado fui a uma das melhores coisas que a cidade oferece: peça do grupo XIX lá na Vila Maria Zélia. Sempre uma ótima experiência, já pelo local carregado de história e charme, seguido das peças de altíssima qualidade.
____ O dia estava quente, céu com algumas nuvens lá longe, imaginava que ia chover como nos outros últimos dias, sempre ao final da tarde… Encontrei Angela ali no metro Belém e pegamos uma lotação até a Vila. Chegamos cedo, antes da distribuição dos ingressos, aproveitamos para tomar um sorvete no calor danado desses últimos tempos. Uma cervejinha também. Voltamos lá, pegamos as entradas e retornamos ao botequim. Dava tempo para outra cervejinha, o dia, o clima, o tudo tava pedindo mais uma.
____ Descobri que a peça se chamava Teorema 21 e tinha alguma relação com o filme. Ótima coincidência, umas duas semanas antes assistí o filme e tava afiado no clima. Já comecei a imaginar cenas ali no espaço do grupo… Beleza!
____ Chegou próximo do horário, aproveitamos para ir ao banheiro… “Onde fica mesmo?” e a bela resposta: “Ali atrás da igreja.” Ahhh… Aguardar o início de peças lá dá sempre um leve friozinho, cada uma com suas peculiaridades. Engraçado pensar que um dos grupos que mais simpatizo e considero atual usa como motivo o século xix.

____ De cara fomos avisados que a peça não seria na casa de sempre, iríamos a outro espaço ali, sem teto e caso chovesse muito, enfim, rezemos para que não. O tempo começou a fechar dois minutos antes desse aviso. Um vento forte arrastava folhas e sujeiras no chão. Tava para chover, distribuíram capinhas caso a chuva fosse leve…
____ Fiquei animado enquanto caminhávamos para um dos prédios largados e de restrito acesso da vila. Cheguei a ver como era dentro deles num filme que trabalhei, mas sempre quis ir lá. Ah, como estava animado e com leve sorriso no rosto…
____ Aqui é necessário um corte no texto. Não vou descrever a peça, mas a partir de um cuspe na cara e um tapa revidado, qualquer possibilidade de sorrisinho se tornou impossível para mim como espectador. Eu fui levado a áreas que não estava preparado nem imaginava ir naquele belo dia. Até o tempo pareceu ter se rebelado com alguns gritos de relâmpagos e gotas de tensão. A peça, assim como o filme, é um estudo sobre o humano. O filme é gostoso, a figura misteriosa do cara traz uma certa expansão das possibilidades para os membros daquela família. A peça também, mas é violenta… humanamente violenta, a peça é chocante. Uma certa continuação lá do filme, a família e o estrangeiro ainda existem, em outro espaço, tempo, dimensão…
____ Da moldura da janela lá ao longe até o ruído da pedra, o vermelho líquido, facas, charuto, gritos e correrias. Bem influencida pelo cinema, não apenas do Pasolini, no programa citam duas outras boas referências: Haneke e o grego do Dentes Caninos. E eu animado indo ver uma peça do xix… A última que experienciei deles foi a loucura “Nada aconteceu, tudo acontece, tudo está acontecendo”, que já senti uma interessante diferença com as outras que tinha assistido (Hysterya e Arrufos). Essa, Teorema 21, é uma total revolução, mexeu  de uma maneira extremamente forte em áreas que não associava com o grupo. Pensando bem, nunca cheguei a tais lugares em qualquer outra peça. Ficou até um pouco difícil parar a brincadeira e bater palmas no final.

____ Assim como Bergman, Haneke, Dardennes, Tarkovski e Hors Satan do Bruno Dumont, essa peça tá na mesma área de classificação… Coisa braba!

conselho do guarda-chuva

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____ Quando eu era pequeno, uma garota me recomendou sair sem guarda-chuva em dias nublados. Não pesar tanto com as possibilidades, estar livre da aparente segurança que o objeto traz.
____ Pequeno era e não compreendi a grande lição, até essa semana. Fui pego de surpresa por uma tempestade de verão e ao invés de aguardar em um abrigo, resolví continuar no caminho. A água, quente até, caiu só por uns dez minutos. Das primeiras gotas até os raios de sol que logo ressurgiram, eu estava ali, simples e completo, pleno.

____ Precisei de alguns anos para compreender um antigo conselho. Repasso-o, agora por experiência: vez ou outra, em dias nublados, deixe o guarda-chuva em casa.