a cidade pode ser boa

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____nosso tempo é de consumo imediato, então escrevo enquanto as coisas ainda estão frescas… eu cansado e sujo do dia.
____acordar cedo num domingo não é costume, mas como veio um chamado de marina, assim o fiz. e que bom. a ideia era: tem trilha, uma vivência (?) e depois jam, no horto florestal. anima? anima. nunca fui lá, faz tempo que não caminho entre árvores e jam é meditação/celebração com outros. tinha a possibilidade do coração talvez sentir um pouco nessas condições, mas quem não sente, não vive. fui.
____o coração sentiu, o sol brilhou, o corpo movimentou. reconheci amizades e tivemos a oportunidade de criar outras.
____que dia… daqueles que a única aceitável e compreensível reclamação é: poderia ser mais. a parte boa é que tento não reclamar das coisas (utilizo delas apenas como efeito literário!) e certamente viví inteiro e íntegro enquanto tudo aconteceu.
____não se pode pedir mais, não se pode oferecer mais.

____a cidade pode ser boa… em dias como este.

mãeana e jacy

____ que prazer provar das coisas novas e inesperadas…

____ sem saber o que esperava, fui ao show da banda mãeana aqui no sesc belenzinho. O chamado veio de Angela, fazia bastante tempo que não saíamos. A caminhada até lá foi uma das mais gostosas — e olha que faço esse caminho quase que diariamente. Acho que era o ar de verão e o mar de emoções da semana anterior. No caminho, ao chão, encontrei flores e as carreguei comigo. Para ser totalemente sincero: a rosa encontrei no pé e a tirei do caule. Já aprendi que esse pequeno incômodo de tirar flores de seus lugares naturais é o que se paga pelo valor desses presentes vivos. Tirei uma foto.

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____ Caminhando mais um pouco, ví a nossa amiga lua. Quase cheia, brilhante mesmo de dia e com o céu limpo e azulado, fazia um ótimo contraste. Foto de lua (e de coisas simples e naturalmente belas) nunca faz jus ao que é, mas veio o impulso:

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____ Encontrei Angela e fomos no terraço tomar um cafézin. Lá embaixo, na piscina aberta, ia começar uma sessão de cinema para se assistir deitado e relaxado em bóias! Ah, que gostoso… mas o sesc não me quer como participante e eu não quero quem não me quer.
____ O final de tarde lá do terraço é um presente em sp, recomendo a qualquer um.

____ Não sabia quem ou o quê era essa tal banda.
____ Assim que o palco foi aberto, já animou. Cores e coisas por toda a volta. Diversos estandartes com… desenhadas bucetas? Era isso mesmo? Era isso mesmo. Tinha até cabeça de et no centro do palco.

____ A banda entrou. Um sereio entrou. Uma linda mulher com um barrigão de uns oito meses entrou. Que bela imagem, palco completo, vivo. A música começou e a noite que já tava boa só continuava a melhorar.
Sobre a música, só posso recomendar aos outros escutar e experimentar um show…

____ Para extender um pouquinho a noite, fomos ao barzinho-brechó ali na frente. Na conversa claramente decidimos que a única coisa não tão boa de toda a noite foi a obrigação de assistir ao show sentados… que noite.

____ No dia seguinte veio o chamado da Malu. Assistir uma peça ali no sesc pinheiros. Meu deus, como essa instituição tá presente na vida desses últimos dias. Justo essa, que não me quer como eu a quero — condição normal de todo sofredor romântico, minha não, é claro.

____ A única coisa que sabia era o nome da peça, Jacy e que eram do Rio Grande do Norte. Tava dentro fácil fácil. Malu atrasou e por pouco quase fui embora…

____ A peça muito boa, agradável de assistir, além de informar sobre várias loucuras da vida. Cheia de efeitos, camera, microfones, usados na medida certa, a história toda amarradinha, sempre lá em cima. Ahh, e aquele sotaque… como é bom escutar a grandeza da língua, de lugares tão distantes mas tão próximos.

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Um dos prazeres da peça foi descobrir que Jacy é lua em tupi. E eu lá fora, em noite de lua cheia… teve uma época da vida, mais jovem é claro, que eu queria sair só quando a lua chamava. Auuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…..

batidas no piano em frente ao sol

____ O chamado veio da Raquel: Vai ter alguma coisa na frente daquela obra que você gosta – e me passou um link. Ví em umas fotinhos que tinha algo relacionado com o piano na frente do sol lá no sesc belenzinho. Beleza, acabei de acordar da soneca, por que não? Saí de casa faltando vinte minutos para as 19h, horário marcado para começar. Cheguei lá 18h57, com o corpo em alta e levemente suado. Atrasou e fiquei a matutar… quase escapei para assistir o pôr do sol lá no terraço…

____ Começou com um grupo de pessoas chegando ali perto. A apresentação de um garoto foi: serão duas peças, a primeira mais sonora, talvez vale vocês chegarem mais próximos. Fomos.
____ Água caindo de diversas maneiras. Gostoso som do líquido, boa figura do diversificado grupo. Foi rápido e simples. O ruído geral do espaço faz parte da experiência, mas acaba tirando um pouco da atenção.
____ Durou uns 5 minutos. Depois foram ao piano. Primeiro o anunciante, depois um e outro e foi-se aumentando até todo o grupo munido de martelo, pregavam as teclas do coitado do piano.

____ Em um momento, apareceu um casal de enfermeiros com uma criança de uns seis ou sete anos. Primeiro aqueles olhares claros de o que tá acontecendo por aqui?! Depois o menino se aproximou da ação. Anotei os comentários do pequeno, que contêm um pouco de sabedoria e espontaneidade que tanto admiro:
____ — “Ué, o que vocês estão fazendo com o piano?”
____ — “Vocês não vão tocar mais? Não tá funcionando?”
____ — “O piano é tão bonito…”
____ Enquanto dizia isso, ele dançava às batidas e vez e outra girava com os braços abertos.
Compartilho todas as falas do garoto e inclusive gostaria de girar um pouquinho ao ritmo das batidas.

____ Achei interessante a imagem e até o som tem um certo charme, batidas de martelo dentro e no piano… mas… tanta destruição…
____ Eu não conheço a história deste específico instrumento além do que estava escrito na frente: veio de Hamburgo e a marca nem gravei. Um objeto naturalmente tão poético e com tantas possibilidades sonoras, me pergunto o valor de utilizar/descaracterizar/destruí-lo para esses fins criativos.
____ Certamente eu trocaria esse meu texto por um piano inteiro nas mãos de algum estudante que não tem chances de importar um lá da alemanha… vai entender, o piano se foi e a experiência ficou. Espero que tenha servido de faísca ou inspiração para os outros ali.


____ Na volta ví a lua, que tá quase cheia… e o céu, azul com as nuvens em roxo. ah, pela lua e por esse céu eu trocaria um piano de hamburgo.
____ A foto da lua fico devendo… porque não tirei e porque não faria jus a tamanha beleza — como sempre.

desenhos de um retiro do ano passado

____ Ano passado, por estes mesmos dias de agosto, eu terminei um curso de meditação e me preparava para servir como voluntário por um ciclo de mais dez dias. Como estudante, a instrução é não fazer anotações — é até compreensível, pois a escrita pode se tornar uma grande distração… um lugar seguro, um refúgio ao invés de se focar puramente na meditação. Como servidor, as anotações (e até leituras, porém de conteúdo selecionado) estão liberadas, desde que feitas em local e momento adequados (antes de mais nada, longe dos olhares dos estudantes e em horários livres de tarefas).

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____Uma das minhas funções diárias era bater o sino para avisar que as refeições estavam servidas. Eu escolhi esta função por dois motivos: quando se é aluno, o batedor de sinos é algo como uma “conexão” entre estudantes e o mundo de fora – mesmo que servidores (e a comida, é claro!). Outro motivo, mais simples, é: Há toda uma poesia e tradição no som de qualquer sino… são poucos os lugares que ainda o usam com algum propósito verdadeiro, útil…
____ Ao lado direito, há o desenho do caminho de pedras que os homens fazem diariamente da sala de meditação para o refeitório. Neste espaço, também fazia minhas caminhadas da tarde…

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____O desenho não faz jus ao tamanho da pedra, que é enorme. Ela ali, quieta e equilibrada, traz bons momentos de reflexão. Está num dos lugares mais altos do espaço e no contra-plano vemos o horizonte bem aberto, cheio de montanhas… gostaria de desenhar essa bela vista, quem sabe alguma outra vez…

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____Este é o caminho por onde se chega ao centro. Para os homens, também é a vista do refeitório. Muitas árvores e passarinhos, tudo em extrema sintonia…

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____E uma colagem de rabiscos entre anotações. Eu andava sempre com o caderninho e nas caminhadas para bater o sino ou jogar o lixo, vez e outra encontrava algum bicho… teve um tipo de pássaro que encontrei várias vezes, depois descobri que eram araçari-poca. Haviam outros, mas desses ficaram marcados pois nunca se assustavam enquanto se passava por perto. Sempre de olho, equânimes…

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____Realmente a sensação de tempo é elástica…
____Traz uma certa desconfiança pensar que passou um ano desses desenhos.

____Tudo é, tudo muda… perpétuo movimento.
___ P]_

goodreads

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____ Aproveitando a modernização dos tempos, celular com internet e tudo mais, me cadastrei numa rede social chamada goodreads, interessante maneira de catalogar e compartilhar gostos literários. Sabia da existência desse site, mas como no couchsurfing, cheguei atrasado… antes tarde que nunca.
____ O que mais gostei é uma opção de “comparar” leituras com os outros… boa sensação de encontrar parceiros de viagem.
____ Há um sistema de avaliação dos livros, mas assim como nos filmes, não consigo nem desejo julgar por números de estrelinhas, dedinhos para cima ou para baixo, ou o que for. Acho um certo desrespeito com a obra essa simplificação…
____ Deve ser legal conhecer pessoas e trocar pensamentos sobre livros, mas como tudo  que exige energia nesse universo digital, eu admiro a ideia mas passo. Tipo esses aplicativos de encontros, se fosse apenas apertar um botão, eu topava fácil. Agora ter que ficar de bate-papo, apenas não dá.

quarta passada

____ Na quarta passada duas coisa boas aconteceram…

____ Encontrei um grande amigo que logo embarcaria para uma imprevisível jornada com sua garota, do Brasil para a Espanha, sem data de volta. Que momento decisivo! Antes de pararmos em qualquer lugar com mesa e um pouco de silêncio, passamos numa. Perguntei se ele já tinha livro para levar, respondeu que alguns, além de tudo o que se tem para mudanças de vida inteira para outro país. Gostaria comprar Cem anos de solidão, em português mesmo, para ele não esquecer da nossa língua. Ele perguntou para uma moça se havia um outro livro, pensei “é esse que vou compra pra ele, já que ele quer…” Tinha o livro, mas em encomenda, cerca de quatro semanas. Já era, pensei, mas me estranhou quando ele disse “tá ótimo, vou levar.” Na hora que ela perguntou os dados da encomenda, ele pediu os meus. Daqui três semanas chega meu presente… Depois fomos até algum lugar qualquer da rua augusta e colocamos um pouco os assuntos da vida em dia. Desejamos boas energias para os tempos futuros…

____ Eu precisava sair para encontrar uma garota lá embaixo no sesc consolação, fazia tempos que não a via também, além de ter um espetáculo de dança para assistirmos. Um dos melhores que já presenciei, mesmo com pouca experiência nessa área. Um casal de dançarinos, um trio musical composto de mulheres que gostei até das músicas-ruídos. Belos dançarinos, belas imagens, uma interessante inspiração para a vida. Desde o começo queria ter uma camera para capturar o tempo e depois desenhar os movimentos… o espetáculo chama Maybe, foram apenas dois dias e eu fui no último. Se tivesse mais, iria mais. Desse jeito. Teve até referência ao La notte em certo momento. A peça tinha alguma coisa relacionada com deficientes visuais, em alguns momentos do espetáculo vinha uma voz do além e narrava um pouco o que acontecia ao palco. Interessante, acrescentou ao todo. Conversando depois, pude entender um pouco mais sobre meus próprios gostos. Gostei logo de cara da peça pois trata de casal, de humanos em relações, de apoios, de atração, de repulsa, de amor, leveza, de talvez… talvez dê certo, talvez não, talvez deu o que tinha que dar, talvez nunca foi, talvez é, talvez será.  Talvez nada. É esquisito me pegar pensando nisso.

____ Semana passada. O tempo passa que a gente nem percebe direito.

sombrio teorema

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____ Esse último sábado fui a uma das melhores coisas que a cidade oferece: peça do grupo XIX lá na Vila Maria Zélia. Sempre uma ótima experiência, já pelo local carregado de história e charme, seguido das peças de altíssima qualidade.
____ O dia estava quente, céu com algumas nuvens lá longe, imaginava que ia chover como nos outros últimos dias, sempre ao final da tarde… Encontrei Angela ali no metro Belém e pegamos uma lotação até a Vila. Chegamos cedo, antes da distribuição dos ingressos, aproveitamos para tomar um sorvete no calor danado desses últimos tempos. Uma cervejinha também. Voltamos lá, pegamos as entradas e retornamos ao botequim. Dava tempo para outra cervejinha, o dia, o clima, o tudo tava pedindo mais uma.
____ Descobri que a peça se chamava Teorema 21 e tinha alguma relação com o filme. Ótima coincidência, umas duas semanas antes assistí o filme e tava afiado no clima. Já comecei a imaginar cenas ali no espaço do grupo… Beleza!
____ Chegou próximo do horário, aproveitamos para ir ao banheiro… “Onde fica mesmo?” e a bela resposta: “Ali atrás da igreja.” Ahhh… Aguardar o início de peças lá dá sempre um leve friozinho, cada uma com suas peculiaridades. Engraçado pensar que um dos grupos que mais simpatizo e considero atual usa como motivo o século xix.

____ De cara fomos avisados que a peça não seria na casa de sempre, iríamos a outro espaço ali, sem teto e caso chovesse muito, enfim, rezemos para que não. O tempo começou a fechar dois minutos antes desse aviso. Um vento forte arrastava folhas e sujeiras no chão. Tava para chover, distribuíram capinhas caso a chuva fosse leve…
____ Fiquei animado enquanto caminhávamos para um dos prédios largados e de restrito acesso da vila. Cheguei a ver como era dentro deles num filme que trabalhei, mas sempre quis ir lá. Ah, como estava animado e com leve sorriso no rosto…
____ Aqui é necessário um corte no texto. Não vou descrever a peça, mas a partir de um cuspe na cara e um tapa revidado, qualquer possibilidade de sorrisinho se tornou impossível para mim como espectador. Eu fui levado a áreas que não estava preparado nem imaginava ir naquele belo dia. Até o tempo pareceu ter se rebelado com alguns gritos de relâmpagos e gotas de tensão. A peça, assim como o filme, é um estudo sobre o humano. O filme é gostoso, a figura misteriosa do cara traz uma certa expansão das possibilidades para os membros daquela família. A peça também, mas é violenta… humanamente violenta, a peça é chocante. Uma certa continuação lá do filme, a família e o estrangeiro ainda existem, em outro espaço, tempo, dimensão…
____ Da moldura da janela lá ao longe até o ruído da pedra, o vermelho líquido, facas, charuto, gritos e correrias. Bem influencida pelo cinema, não apenas do Pasolini, no programa citam duas outras boas referências: Haneke e o grego do Dentes Caninos. E eu animado indo ver uma peça do xix… A última que experienciei deles foi a loucura “Nada aconteceu, tudo acontece, tudo está acontecendo”, que já senti uma interessante diferença com as outras que tinha assistido (Hysterya e Arrufos). Essa, Teorema 21, é uma total revolução, mexeu  de uma maneira extremamente forte em áreas que não associava com o grupo. Pensando bem, nunca cheguei a tais lugares em qualquer outra peça. Ficou até um pouco difícil parar a brincadeira e bater palmas no final.

____ Assim como Bergman, Haneke, Dardennes, Tarkovski e Hors Satan do Bruno Dumont, essa peça tá na mesma área de classificação… Coisa braba!