coleção de conchas

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____ Hoje a maré estava mais baixa e caminhei um pouco mais que o normal. A manhã estava ótima. Assim que pisei na areia o sol saiu dentre as nuvens. Uma palavra veio para descrever o momento: delicioso.
____ Enquanto caminhava, reparei que tinha mais conchas, deve ser por causa da água baixa. Minha coleção antes de hoje era de três, agora são diversas. Cada vez que batia o olho numa “exótica”, vinha: essa concha é única, tem uma beleza que é só dela. Abaixava, pegava, examinava. É boa para ficar.
____ Caminhava mais um pouco, o processo se repetia…
____ Aí comecei a refletir que precisava mudar essa lógica, senão ia acabar com o bolso cheio de infinitas conchas. Todas elas tem sua própria beleza, se bem olhadas. É aquela velha máxima, não preciso repetir. Comecei a pensar nas pessoas, nas coisas, nas histórias e filosofias, no olhar aberto e curioso das crianças.
____ Eu cresci um pouco só para depois descrescer.

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um trabalho passageiro

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um trabalho passageiro

____ O plano inicial era ficar em Arraial do Cabo apenas três meses, de setembro a novembro, antes de iniciar a alta e caótica temporada de férias. De caos, basta aquela outra cidade.
____ Nacho, que me indicou a cidade também sugeriu trabalhar num albergue como recepcionista, “super de boa e cheio de garotas.” Que mal teria? além é claro, de trocar algumas preciosas horas diariamente. A chance de histórias é tão válida e importante como o que faria se estivessem livres essas horas – escrever, ler, assistir, dormir, caminhar, meditar. Pois então, lá fui, mês antes de começar a viver “definitivamente” por aqui, na mesma época em que buscava uma casa, combinar essa nova empreitada profissional. A única exigência foi que ficasse também durante o inferno na terra, na temporada de final ano até carnaval. Tudo o que não queria, mas dizem os antigos: para ganhar algumas coisas, é necessário dar outras. Outra reflexão que veio: pode ser um choque mui grande ter todo o tempo disponível para si. Talvez seja interessante doar um pouco do tempo para apreciá-lo ainda mais. E com essas simples máximas, aceitei a condição e preparei a vida de acordo.
____ Alugada a casa, acertado o trabalho, fui passar um último mês fora. Passei esse mês refletindo sobre a vida e as novas possibildiades, rotina, casa, trabalhos. Aí vim.

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uma sem título

____ O dia estava dia e eu queria ver o trabalho dela. Como tínhamos combinado cada um mostrar o seu, resolvi sentar e escrever alguma moeda de troca. Tinha algumas horas até ela voltar…
____ Eu sentei em frente dessa máquina que é de escrever e comecei a pensar: “Bem que um café caíria muito bem, além de deixar a imagem dessa ação mais completa. É, café. Tá na hora do café.” Não seguindo apenas a vontade, mas uma simples e ceirteira lógica, fui até a cozinha. Coloquei a água no fogo, preparei o filtro com o pó. A vista da janela é boa, então fui admirar enquanto a água esquentava.
____ Água quente, ruído de bolhas, passa pelo coador, sai café, mistura açucar, não muito. A vista é melhor acompanhada de um café. Lembrei que a máquina tava lá esperando e a garota logo voltaria. “Ok, vou para a máquina,” pensei, “afinal ideias eu tô cheio, há literalmente infinitas possibilidades que a folha em branco oferece.”
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____ Entrei na sala para escrever e ví a pena e o nanquim. Verdade, veio lá das entranhas uma gana de desenhar. E como não é sempre que essa vontade vem tão forte, só quando quero escrever, então é bom aproveita-la.
____ Comecei a fazer algumas linhas. Outras. Se fizer linha dupla, fica duplamente legal. Por que não passar a pena em tudo? Ok. Não vai demorar tanto…

____ Ela chegou, pegou suas coisas e disse que outrora mostrava seu caderninho. Me deu o famoso golpe.  “E você?”, perguntou.
____ “Hm. Quer ver um desenho?”

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____ Como qualquer texto aqui, agradeço que a época é do digital e alguns dos conhecidos tem tempo. Dentre esses, há ainda menor grupo, com disposição. Segue um desenho.

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o ruído da chuva

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____ Como é bom acordar com o ruído da chuva. Ainda na cama dá para imaginar aquele tom cinzento, um friozinho, aquela leve melancolia que acompanha a solidão do molhado.

____ Faz pouco mais de uma semana que cheguei em Arraial do Cabo e até agora choveu exatamente todos os dias. Claro que alguns dias menos, outros mais, mas o cinza das nuvens está sempre presente. Acredito que lá pra cima o céu ainda é azul, mas isso é mais por pura convicção e fé, e menos por testemunho ocular.
____ Meus amigos, vocês não imaginam o prazer que eu sinto quando vou caminhar pela praia e lá no fundo do horizonte há uma linha difusa entre o mar e uma névoa que paira baixinho. É claro que eu vim pra cá por causa das paradisíacas praias com sol, para passar por um processo de enpretecimento do corpo, quem sabe até práticar natação em mar aberto, mas que bom descobrir um lado novo desse lugar.

____ É claro que assim como a beleza está nos olhos de quem vê, a qualidade dos ruídos também está nos ouvidos de quem escuta.

____ Ah, que prazer ir dormir com o ruído da chuva…

____ p.s.: Me perdoem a forma, mas quero praticar o dedo para a escrita e a cara para batidas.